Ao Bocejar, seguido de um longo espreguiçar, enche os pulmões de ar. Respira profundamente, são doloridos dez segundos, e a noite mal começou. A jornada de trabalho independe de horário predeterminado. Ela depende da quantidade de clientes.
A desilusão abate, desanima, mas a fome e a necessidade de sobreviver impera. A idade impregna-a cansaço. Quando começou vender seu corpo, pensou logo em sair. Ganhar o suficiente e mudar, mudar para melhor.
As noites caíram, o dinheiro não entrava. Precisava pagar as contas de luz, água, telefone; carecia de alimento. O “produto humano” não tem preço fixo, pende de acordo com a necessidade de quem se vende. O que antes era feito por R$ 20,00, em extrema falta é aceito por R$ 5,00. Na mais drástica situação, ela aceita um prato de comida.
Fria, escura, perigosa, assim é à noite. Sozinha e acostumada às surpresas noturnas, não teme nada e ninguém. Desiludida, consigo; com a vida. A idade abate o rosto. São anos e mais anos de trabalho. Noites sem dormir.
Trabalho, sim! A “prostituição” é legalmente reconhecida de acordo com a portaria nº 397, de 9 de outubro de 2002, que aprova-a na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). O documento reconhece, nomeia, codifica os títulos e descreve as características das ocupações do mercado de trabalho brasileiro.
“Um trabalho como qualquer um, afinal, quem não se vende?”, interroga. Essa é a motivação de Maria Esperança, 42 anos, acerca de 20 anos como profissional do sexo. Palavras que encaminham-na a mais um dia de trabalho.
Cometida por olhares diretos, focados, preconceituosos que se deslocam rapidamente ao vazio, senti-se insegura – quanta insegurança!
Ela perdeu a conta de quantas vezes chorou. Os olhares tendenciosos atravessam-na como fagulhas de aço cortantes, farpas, balas. As cicatrizes estão lá, porém, imperceptíveis!
Quantas tentativas de clamar a si na procura de explicações a tamanha descriminação. Pensativa, Maria Esperança na autofagia de seus órgãos (fome) reflete. “Será que mereço tudo isso, tanto julgamento? Não entrei nessa vida por gostar, a vida que me jogou aqui”.
Agora não mais se produz. A fisionomia pálida deixa eminente o alarde de desorientamento consigo mesma. Maria também não tem condições de comprar produtos de beleza, porque os ganhos são inferiores a dois salários mínimos.
Ao entardecer, Maria acorda. A noite passada foi lucrativa. Teve de trabalhar até as 6h da manhã. Enfrentou duas horas de ônibus, o percurso é longo, desgastante. Chegou em casa por volta das 9h, desabou!
O despertador biológico, não o frio forjado em aço, aponta à hora de ir alimentar-se. Ainda deitada, a fome aperta, levanta, vai à cozinha a procura de alimento… A geladeira, vazia. O dinheiro, na bolsa!
Há um mercado próximo a residência que aluga. Carregada pela fome, segue à mercearia. Mesmo sonolenta, percebe as pessoas abominando-a, desprezando-a. Esperança parece escutar os comentários a seu respeito. Não resisti!
Sem comprar nada, esgotada e enfurecida, volta para casa. Tranca-se! A depressão bate a porta, entra e assalta-a. Maria definha pouco a pouco. É um martírio. Pede socorro, mas ninguém a ajuda. São duradouros berros. Esse foi o primeiro dos dias que o preconceito venceu a batalha contra Maria Esperança.
O texto “O martírio de Maria Esperança” foi elaborado por mim a mais de um ano para ser apresentando à disciplina de Laboratório de Texto I, no terceiro período de minha graduação. Informo que os personagens e toda a história em si são fictícios. Entretanto, baseadas em entrevistas obtidas com mulheres que trabalham como profissionais do sexo.
Texto e edição: Rafael Alencar